Não seja radical. Seja feliz.

Pelo pouco que me lembro, faz vinte anos que sou fã de música pesada. Convivo diretamente com pessoas ligadas ao heavy metal, e ao rock and roll em geral. Músicos, fãs, escritores, produtores e afins. Durante todo esse tempo, pude notar um comportamento padrão em muitas dessas pessoas: o radicalismo.

Para muitas dessas pessoas que convivi, nada presta. Apenas o que elas gostam é bom. Além desse pensamento, essas pessoas raramente ouvem algo diferente do que estão acostumadas.

Eu assumo que já fui radical. Talvez por ter me influenciado um pouco demais por pessoas que evitavam, qualquer coisa fora do rock/metal, só ouvia algo se fosse pesado. Porém, muitas coisas “mais leves”, por assim dizer, me chamavam a atenção.

Eis que um dia, creio eu que pelos idos de 2000, me peguei ouvindo música Pop, e achei aquilo legal. Não me recordo o artista que era, mas certamente não era algo que nem eu, tampouco as pessoas que eu convivia iríamos ouvir em grupo, ou debater.

Achei uma sensação estranha, e o pior de tudo: senti vergonha de assumir que gostei daquilo. Dias e meses se passaram, até que cheguei no ponto de achar tudo isso uma besteira, e decidi enfiar o pé em tudo.

Deixei de andar apenas de preto, nunca mais “cobrei ideia” de alguém que estivesse usando uma camiseta do Ramones, ou do Slayer, e resolvi ouvir o que eu queria, sem me prender a um estilo, e sem me importar se o que eu ouvia era pesado ou não.

O resultado? O melhor possível. Nunca mais tive que ouvir baboseiras do tipo “o Metallica morreu”, ou “só o primeiro álbum de tal banda é bom, o resto é um lixo”, e demais frases do Bingo do True Brazilian Headbanger. Minha saúde melhorou, e muito. Não passei mais nervoso por banda que evoluiu musicalmente, comecei a frequentar muitos eventos de bandas que eu jamais iria 15 anos atrás, por exemplo. Além de tudo, usar o uniforme de metaleiro no calor é um saco. Apesar que isso nunca fez muito sentido pra mim, afinal, mesmo todo headbanger do meu círculo de amizades se vestindo como um corvo, eu me sentia mais confortável com trajes similares ao dos caras do Anthrax:

1

Anthrax, aliás, que teve um papel muito importante no meu amadurecimento como fã: a gravação de “Bring The Noise”, realizada em conjunto com os monstros do Public Enemy representou um marco. Uma das primeiras vezes que o Metal se juntou com o Rap. É claro que muita gente torceu o nariz, e desceu a lenha. Mas, além de ser a opinião alheia, o que eu ouvia era apenas a  crítica pela crítica, baseada apenas no radicalismo. Se esqueceram que ficou bom, diferente de qualquer coisa que existia na época. O melhor de tudo, ficou divertido. É claro que isso influenciou muita coisa depois, até o polêmico New Metal, que eu não sou fã, mas existe quem admira, e o estilo deve ter alguma coisa boa pra quem gosta. Pra quem não gosta, basta não ouvir.

Todo o radicalismo na música não é exclusividade do mundo do rock. Talvez os fãs de metal até sejam mais fechados pelo fato de que a sociedade os trata de maneira preconceituosa na maioria das vezes, mas isso é outra questão. O radicalismo é reflexo de algo que se tornou muito constante na vida de muitos brasileiros: a intolerância.

Temos dificuldade em aceitar quem tenha pensamentos e hábitos diferentes dos nossos. Dificilmente saímos da nossa zona de conforto em busca de algo diferente. E o resultado acaba sendo meio ruim na maioria das vezes.

Desde o dia que resolvi ser eu mesmo, vivo uma vida mais leve. Continuo ouvindo muita coisa pesada, é bem verdade, mas se antes diferenciava as coisas que ouvia e não ouvia pelo simples fato da música ser ou não Metal, hoje ouço o que me faz bem, e o que não faz, eu deixo passar. Acredite, isso vai te fazer um bem danado.

Gosto é gosto. E não sei como você vai se sentir lendo isso, mas o fato de você gostar de um estilo musical não o impede de gostar de outro. Claro que mantenho alguns padrões, e evito alguns artistas que considero ruins, da mesma forma que passo longe de estilos que acho ofensivos ou simplesmente desagradáveis.Por exemplo, não vejo problema em ouvir Morbid Angel, e no mesmo dia sentir vontade de ouvir uma banda de Indie Rock. Ou então em passar o dia ouvindo a discografia do Carcass, e a noite ouvindo Roxette. E digo mais, tomar cerveja ouvindo moda de viola me faz um bem danado. Caso não faça bem pra você, relaxa, sempre fará bem pra alguém. E isso serve para praticamente tudo na música.

O que não faz bem é ser radical. Por isso, fica a minha dica: Não seja radical. Seja feliz.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s